quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Orientações do professor de DV

Estamos perante um dispositivo (o documentário) altamente dependente da relação que conseguir estabelecer com o objecto. Como a realidade em questão é humana e social, o foco da proposta nas questões metodológicas com recurso às ciências sociais faz todo o sentido.
No entanto, não estamos perante um estudo sociológico. Há que discernir as diferenças. As ciências sociais têm as sua ferramentas de análise, o seu objecto e a sua linguagem, diferentes obrigatoriamente de uma abordagem centrada na imagem.
No documentário, a aproximação ao contexto, a interferência do investigador, a sistematização de recolhas e dados, entre outras questões, orientam-se para a produção de um objecto visual, ou sonoro, ou audiovisual, com características e capacidades que são diferentes de um texto de sociologia. O trabalho da imagem tem que definir o seu território, a sua linguagem própria e as técnicas que lhe estão associadas.

1. O tema do documentário.
A complexidade implicada no documentário aconselha clareza na definição de uma perspectiva sobre a realidade e a limitação de um campo de observação que possa ser a espinha dorsal do trabalho. A essa perspectiva corresponderão objectivos, também eles claros. A perspectiva é conhecer o Stop? Conhecer o bairro circundante? Observar a relação entre ambos? Indagar sobre o papel da imagem nessa relação? Fixar uma memória para o Stop? Colocar o Stop a reflectir sobre si próprio? Cada uma destas perspectivas visa a mesma realidade, mas é, cada uma delas, um fio condutor diferente. Conhecer uma realidade na sua totalidade é uma ambição muito grande e vaga. Um campo reduzido e uma perspectiva apertada podem parecer redutores à partida, mas serão mais funcionais, produzirão resultados mais peculiares e acabarão por referir, inevitavelmente, o universo em estudo no seu todo.

2. Os objectivos do documentário
Documentar implica um grau assinalável de abertura àquilo que a realidade que vamos registar tem para "dizer". Interessa que os objectivos definidos à partida tenham espaço para se moldarem à medida que a descoberta avança. Caso contrário, o documentador fica refém do seu ponto de partida. A existência de uma intuição inicial e de uma convicção sobre o interesse de reportar a realidade em questão, é tão importante como assumir que o processo vai determinar o alcance final da peça.

3. A estratégia de recolha
O documentário implica um conjunto de procedimentos e meios técnicos que é necessário ponderar à partida. A definição das condições da recolha vai para além da relação social envolvida; ela abrange opções técnicas que visam tanto as características físicas da recolha, como a cobertura exaustiva da perspectiva e do campo escolhidos. Isto é especialmente importante se formos registar situações para as quais não teremos segunda oportunidade. Preconiza-se uma recolha espontânea ou encenada? Como orientar à partida opções estéticas como os tipos de plano ou movimentos de câmara? Que tipo de procedimentos garantem o registo exaustivo do campo escolhido? Etc. As duas dimensões (a forma das recolhas e o conteúdo visado) terão uma relação que será posta em evidência na montagem do produto final.

4. A análise e a síntese
O visionamento do material recolhido e a sua composição num objecto final correspondem a um trabalho (laboratorial) de análise e síntese, a montagem, no qual a imagem se coloca à prova como portadora e produtora especializada de conhecimento e sentido. Sem perder um espaço de experimentação que é crucial, é importante que um plano concretize como é que a recolha reverte para as possíveis montagens. Que portas abre? Que dificuldades apresenta? A montagem pode vir a ser um processo aleatório, sistemático, intuitivo ou programado. Até o caso da recusa de decidir um processo de montagem pode ser assumido como condição de partida, contextualizando a decisão.

5. Estratégia de exposição
A forma de difusão e exibição do documentário, desde que pensada à partida, influencia as opções técnicas e conceptuais dos passos anteriores, com implicações no todo que produzirá leitura e sentido. As qualidades técnicas dos registos (resolução, formato, estilo de filmagem/recolha) e a estratégia de montagem (ritmo, estrutura da narrativa, opção pela peça única ou série, duração) têm implicações estéticas e conceptuais por si só e na relação que estabelecem com meios e contextos de difusão específicos. Exemplos simples: a) filmagens feitas com o telemóvel terão um peso estético determinante num documentário exibido no cinema, mas poderão ser menos marcantes em exibições via internet; b) filmagens sistemáticas (na iluminação, no enquadramento, na classificação dos objectos ou situações a registar) podem ser essenciais para um processo de montagem também ele automático. Por outro lado, a escolha de meios de difusão é por si própria significante. Exibir um documentário sobre o Stop numa sala de cinema, por exemplo, confere desde logo um estatuto ao objecto documentado e interfere no modo como vamos lê-lo através da peça exibida. O que queremos retirar desta escolha dos meios?

Sem comentários:

Enviar um comentário